Londres é famosa pela moda livre.
É o que pensa a vendedora da No-One e o que a maioria comenta por aqui. Um lugar onde a pessoa sai de cueca na cabeça e ninguém dá bola.
Eu até entendo esse pensamento, já que os imigrantes continuam vivendo como se estivessem em seus países. Andando com a mesma gente, comendo a mesma comida e usando as mesmas roupas. O que traz diversidade às ruas.
Também porque é uma metrópole e as pessoas vivem correndo. Cheios de compromissos, não conversam nem se olham. Muito menos ficam comentando se alguém usa a cortina do box como saia.
Mas os jovens londrinos tem usado essa liberdade para se padronizar.
Estão se vestindo como avós indo passear no parque em seus tempos dourados. Com direito a cestinho de palha no guidão da bicicleta.

Em lugares descolados como Brick Lane e Shoreditch, a maioria veste o vintage. E ver tanta gente criativa usando as mesmas roupas me deixou encucado.
Logo os criativos, que vivem atrás de novidades. Que veneram a diversidade.
Então comecei a pensar sobre “copiar roupa”.


Minha primeira dedução foi que muitos adotaram o estilo para se enturmar.
Os criativos fodões botaram roupas antigas, gostaram do astral e começaram a usar. Daí foram seguidos pela galera “wanna be”, que não admite ficar de fora da galera cool.
Pessoas preconceituosas que pensam coisas do tipo: “Vamos ignorar essa mina. Ela não usa sapato Bruxas de Salem.”. Ou “Nao vamos cumprimentar esse cara. Ele nao tem bigodinho-enrolado-salvador-dali.
Mas gracas à capacidade do cérebro humano, que não tem nada a ver com seres invisíveis que são a explicação de tudo, existe outro grupo de londrinos. Aqueles que se vestem para ser eles mesmos.
Lembro de uma vez que eu estava no metrô e vi um cara com a manga dobrada. Olhei e não fiquei pensando “Que incrível a manga do cara. Quanto estilo, quanta ousadia.”. Mas registrei.
Depois de um tempo, num dia de sol, olhei para minha manga e adivinha: dobrei. Nem pensei se estava copiando o cara ou não. Apenas utilizei a melhor solução para manga que encontrei na minha cabeça.
E fechou perfeito com o astral que eu estava na hora, meio Marlon Brando em “Um trem chamado desejo”. Fiz porque era o feeling do momento.
Outro dia vi coisa parecida no free lunch Hare Krishna; dois amigos com a voz forçadamente grave. Será que eles não percebem que falam igual? Que vestem a mesma voz? Acho que não.
Porque imagina um deles pensando: “Uau, acho o máximo a voz do meu amigo. Vou copiar.”. Homens do tipo deles não admitem um pensamento desses. É desonroso, gay.
Mas se identificam tanto com o Dirty Harry, que não se preocupam em usar o mesmo tom de voz. Se apaixonaram pelo Clint Eastwood, ué.
E acho que acontece o mesmo na moda. O número de casacos de pele de oncinha que eu vejo por aqui não é brincadeira. Como os lencinhos na cabeça e os sapatos bruxa de salem.
Não é possível que toda essa gente não tenha opinião própria. Que apenas imite, sem saber achar nada legal ou ridículo.
Muitas escolhem essas roupas porque se enxergam nelas. Perceberam qualidades que fecham com seus humores e aspirações.
Nesse caso é uma questao de gosto, não de cópia barata.
Andei perguntando para o pessoal porque eles vestem o vintage.
Uns acham legal por ser alegre e despreocupado. Porque valoriza as curvas. Porque compram as roupas em feiras de rua e em lojas pequenas, fora do circuito mainstream. Ou seja: o estilo das roupas fechou com o estilo das pessoas.
Duas estavam vestindo o casaco dos avós, mesmo. E disseram que pegaram porque estava no armário, foi o primeiro que viram. Queriam deixar claro que não se importam em estar na moda.
Então perguntei se elas escolheriam essas roupas há cinco anos atrás.
Pensaram, se olharam e uma delas disse: “Não”.
Começamos a divagar e eu falei que estavam vestindo a roupa dos avós por causa da moda. Porque tem tanta gente usando e elas enxergam tanto essas roupas, que está na cabeça delas. Acabam se vestindo parecido porque se identificam com o estilo. E isso é mais forte que encontrar alguém na rua se vestindo igual.
Portanto pode ser moda, música, revolução. Não importa.
Quando as pessoas se identificam elas vestem a camiseta.







Lucas
Ficou muito bom. Parabéns. Altas fotos.
Só fiquei com alguma dúvida em relação aos caras com voz do Dirty Harry. Será que estes sentimentos relacionados com moda chegam a afetar o tipo de voz?
A relação com moda é que forçar a voz é adotar um estilo. O processo de escolher uma roupa é parecido. Valeu pelos elogios!
Free lunch no Hare Krishna…rsrs mto bom meu!
Hehe. Quer inspiração vai pro free lunch Hare Krishna… huhuhu. Bom saber que tu curtiu! E vê se vai na aula amanhã, vagal!
Bem legal! A modinha pegou firme memo…Mas isso é um replay de alguns anos atrás, tipo new retrô, ou as garotas aqui do BomFim, que nunca abandonaram os chapeuzinhos de croche de lã e casacõezinhos comprados nos brechós da João Pessoa é que estavam certas?
que legal esse teu texto, lucas!!
pode crer, isso volta e meia acontece comigo tb. as vezes eu olho pra uma coisa, acho muito legal e registro. depois, na hora de criar eu “crio” uma coisa que acho que é nova, mas na verdade tem muitos traços daquela outra coisa que eu vi antes. acho que fica no subconciente. aí tem que apagar tuudo e tentar voltar pro 0…. dificil! ehehe bj
Agora é a minha vez de falar “Que honra”. Afinal, tu desenha roupa.
Como o Guto falou acima, a gente tem mesmo é que se apropriar do que achamos legal. Como acontece na internet, quando a gente repassa um video do youtube que gostou. É o nosso gosto, a nossa preferência. Tem o nosso penso. É nosso.
Porque o que é bom tem que ser espalhado. Beijos!
Muito legal, Lucas! Adorei a divagação sobre a manga. Realmente, utilizar algum estilo, comportamento ou a manga de outra pessoa não deveria ser visto como cópia, no mal sentido da palavra. Mas uma cópia que valoriza a referência que você utilizou. Se é bom pra você, se aproprie dela. É a melhor forma de mostrar admiração. Vejo tanta coisas legais em São Paulo, que esses dias eu queria me vestir como um prédio da Paulista: elegante, austero e com design que parecia da própria avó.
Quer se vestir como um prédio! Fantáááástico, hehehe!
Mas tem tudo a ver, cara. Porque em tudo que a gente faz, ainda mais gente criativa, a gente quer exalar o nosso astral, o nosso climão. E quando uma peça de roupa ou um prédio é a nossa cara, a gente tem que vestir a camiseta. Adotar a causa. Usar com a maior propriedade.
Leu o post sobre Berlim? Vale a pena. Abração!