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Desbravando Londres

Estou em Londres ha 80 dias e nunca aprendi tanto.
Porque eu morei a vida inteira em Porto Alegre, indo sempre aos mesmos lugares e fazendo sempre as mesmas coisas.
Mas aqui eh outra historia. Sao muitas novidades por dia para meu cerebro assimilar.

Nas primeiras semanas, me dediquei aos pontos turisticos. Fui umas cinco vezes em cada museu importante. Passei varias tardes e noites em Leicester Square, Picaddilly, Soho, Brick Lane, Camden Town e Covent Garden. Para aprender o maximo que podia com eles.
Mas agora chega. Quero conhecer o que soh os londrinos conhecem.

Conversando com um e com outro, me deu vontade de conhecer Hackney/Shoreditch. Uma zona que tem atraido musicos e criativos em geral, mas que ainda nao faz parte dos roteiros de viagem.
Lah tu nao ve muita gente nas ruas. Pode facilmente passar de onibus e nao ver nada alem de igrejas, comercios indianos e pubs com velhos de cara vermelha.
Mas lugares legais nem sempre estao cercados de turistas e predios estilosos. Nessas horas eh preciso ter calma e confiar nas dicas.

Depois de um tempo caminhando sem ver nada interessante, olhei para uma rua vazia e avistei pessoas bem vestidas na frente de uma porta. Dobrei a esquina e descobri que era um estudio de musica legendario.
Caminhei mais um pouco e passei por um bar que nao parecia nada de mais. Mesmo assim entrei para dar uma olhada e a parede estava cheia de posters com dedicatorias. Descobri que todos aqueles musicos famosos bebem ali depois das sessoes.
Do The Premisses Studio e do The Premisses Barnull, segui rumo ao desconhecido. Andei alguns quarteiroes xoxos e avistei outra galera estilosa. Eles estavam na frente de uma loja de roupas, que era colada num bar. Otimo sinal.
Como ando interessado em moda, entrei primeiro na loja. Era pequena, mas com roupas muito diferentes. Algumas eram vintage, como boa parte da moda londrina. Mas outras eram ousadas, excentricas. O que ia de acordo com a definicao da bela e espontanea vendedora: “A moda de Londres eh atraente porque os estilistas sao livres para sair da casinha, criar o que quiser. Diferente de Paris.”. O que reflete as ruas de Londres, onde tu pode andar de camiseta e cueca que ninguem faz caras e bocas.
Depois de momentos de desanimo e incerteza, eu estava tendo aula de moda londrina. Brilliant!

jacare
passaro
roupa colorida
martaA mais louca na opiniao da Marta.

Fiquei um tempao conversando com as vendedoras, folhando revistas de moda, de ilustracao. Parecia uma crianca.
Depois atravessei uma porta e entrei no The Old Shoreditch Station.
Um barzinho bem decorado, com musica boa, que me manteve inspirado para escrever este post. Fiquei tomando cafe e escrevendo, deixando o lugar guiar meus pensamentos.

Acho que a chance de nao encontrar nada me deixou ainda mais excitado com aquele mundo novo. E isso me fez aprender mais.
Me deu vontade de olhar roupa por roupa. Puxar papo com as vendedoras. Ficar horas sentado no bar observando as janelas, as pessoas. Tudo. Eu estava faminto.

Abaixo, o The Old Shoreditch Station. See ya!

bar

London People

galera

Eu adoro as pessoas de Londres.
E nao por serem lindas ou supergentis. Mas pelas multidoes que vejo todo dia.

As 8:30, quando pego meu primeiro Tube, jah sou obrigado a observar gente. Porque eh diferente de andar de onibus, onde se olha para nucas. No metro senta um na frente do outro.
Comeco o dia estimulado por pessoas no telefone, lendo livro, jornal gratis, dormindo. Expressoes e sotaques do mundo inteiro – com vantagem numerica dos indianos.

As caras bombardeiam meus olhos e eh dificil nao filosofar.
Penso um pouquinho sobre uma pessoa. Sobre caracteristicas em comum.
O que poderia mudar, o que nunca vai mudar. E assim vou aquecendo a mente.

“O jeito de mascar chiclete diz muito sobre uma pessoa.”

indi

“Os londrinos vivem fechados em seus mundos.
E o isolamento aumenta quando estao lendo no metro.”

foto metro

De tarde nao importa meu rumo; vou topar com multidoes.
E em cima da terra a experiencia eh outra. Em vez de pessoas sentadas, vejo um ambiente vibrante, pulsante. Em vez de dez, sao milhares de roupas, cabelos e caras.
Um enorme caldeirao de gente.

mulher<

gurias

“Londres tem um potencial enorme para dar a luz a novidade. Mas as pessoas de diferentes paises vivem fechadas nos seus grupos, nas suas culturas. Falando seus idiomas e ouvindo suas musicas. Vamo se misturaaaa!”

hare krishna

galera esperando

estranha

Fazer diferente

É difícil agir fora do padrão.

A resposta não vem mastigada. Não sabemos se vai dar certo. Arriscamos perder credibilidade, emprego, ser chamados de loucos. Mas na minha opinião, precisamos deixar a certeza de lado e encarar o desafio. Botar a cabeça pra funcionar.

Porque as pessoas pensam muito no conforto, na lei do menor esforço. E isso ameaça a vida na terra. É como o playboy se deitando na empregada: por que levantar do sofá pra atender o telefone se ela faz isso por ele?

A lógica dos padrões é bem parecida: alguém pensa pela sociedade, encontra um jeito de fazer e diz - Ó, enquanto tu assistia novela eu decidi: em todo aniversário tu vai cantar Parabéns pra Você. Daí, uma galera que tem preguiça de pensar age dessa forma e nasce um padrão. Um dos afazeres da empregadinha.

Como existe padrão pra tudo, o povo desenvolveu o cacoete de não pensar. Assim as pessoas sobrevivem sem stress. Sem atrapalhar o descanso dos seus cérebros.

E fazer igual é tão automático, que até quando só podem dobrar pra esquerda as pessoas botam pisca pra esquerda. ”Ah, todo mundo tá fazendo.” – diz uma Laureci da vida. 

Se o povo seguir menos as regras, muita coisa pode mudar. E quando eu digo regras quero dizer todas. De deixar as mulheres passarem primeiro a ser gremista e não elogiar o Inter.  

Por isso que eu digo: fazer diferente é dispensar as empregadas.

Tiozinho punk Rock

A Praça da Alfândega fica no Centro de Porto Alegre. Ou seja, tem mendigos, engraxates, prostitutas, batedores de carteira e músicos andinos. Sem falar no fedor de vômito, típico desse bairro.  

Mas apesar de tudo ela é cercada pelo Margs, pelo Santander Cultural e eu tava zanzando por lá. Então resolvi conhecer a feirinha da praça. E depois de trocentas tendinhas hippies, de acessórios gauchescos e camisetas de serigrafia, eu encontrei a Banca do Oli.

Oli

Muitos devem conhecer, considerando que já apareceu no Jornal Nacional e no Fantástico. Mas eu não sabia da onde vinham as pulseiras punks e muito menos os cuecões de couro de Porto Alegre. As cuecas, aliás, foram o motivo pra banca ficar famosa nos tempos do Pit Bicha.

cueca

Popularidade conquistada com muito esforço e criatividade. A escolaridade do Oli se resume a meses e ele veio do interior para ser garçom, sem saber ler nem escrever. Até que descobriu o seu dom criativo: “Deus me deu essa habilidade e hoje em dia eu vivo tranqüilo, sem me preocupar em como vou ganhar dinheiro.”. E disse que sempre se destacou porque não deixa a preguiça bater; está sempre agitando alguma.

Ele tem o maior orgulho de dizer que é tudo criação dele, que não copia nada de ninguém. E enche a boca pra dizer que as pessoas comentam “Vi uma pulseira tua  nos EUA.”, “Levei um cinto teu pra Europa e eles adoraram.”. Com vocês, o Oli.

banca 1

Banca 2

boa da banca

boa da banca 4

boa da banca 3

boa da banca 2

banca 4

banca 5

banca 6

boa da banca 5

Xiiiiiiissss

Minhas bandas de carro tem valido a gasolina.

Na verdade, eu sempre andei na rua de radar ligado e sempre me deparei com cenas curiosas. É o tiozinho tirando tatu na maior cara de pau. A tia do cachorro quente trabalhando toda arrumada. O cara correndo de só short  pela noite de Porto Alegre. É uma festa. 

O lance é que agora eu ando armado: minha máquina fotográfica não sai mais do carro.

Porque eu sou assim: não vejo uma coisa legal e resmungo “Legal”. Fico dizendo pra todo mundo “Caaara, tu viu aquilo??”. “Tu viiiuu???”. “Não, mas tu viu direito!”. “Olha, meu! Olha ali”. “Báá, QUE A-FU-DÊ!!”. “OLHA!” E além disso significar que eu sei como ser chato, quer dizer que eu tenho facilidade pra me encantar com as coisas. Assim como acontece com os filmes, os livros e as palavras sábias das pessoas mais velhas. Então, me caiu a ficha: além de precisar anotar o que eu penso, eu preciso registrar o que eu vejo. 

E essa mania veio na hora certa, porque minha viagem tá chegando (1 ano na Europa) e eu passo o dia na função. Hoje, por exemplo, fui no Bom Conselho relembrar minha infância (que saudade de jogar bola no recreio), no Anchieta relembrar minha adolescência (que saudade das guerras de ovo). Até na polícia eu fui (não tenho nada pra relembrar na polícia). E quanto mais banda eu dou, mais eu tiro foto.  Mais coisa diferente eu vejo. 

Mas já vou avisando: não tenho a mínima técnica. Vou no feeling e deu pra bola. Até porque, quero que as pessoas entendam porquê a foto é interessante. E não que fiquem dizendo “O foco tá bom, hein”, ou  “Não brinca que não tem Photoshop!”.

Bom.  Sem mais delongas, apresento as primeiras fotos da nova fase lucasista: a de sair tirando foto pela rua e ser tachado de louco. Porque vocês ainda não viram do que eu tiro foto…

Começamos com um mestre da arte no metal: o meu amigo Perneta. Não é assim que os mendigos chamam ele, mas é verdade que ele virou meu faixa.

Com o carro andando, só consegui tirar essa.

perneta-1

Então dei a volta na quadra, estacionei o carro e fui falar com ele: “Cara, achei muito legal a tua perna. Posso tirar uma foto?”

perneta-22

Então falei: “Brother, tua perna é incrível mesmo! Como tu fez?”. E ele, com desânimo: “Fazendo.”

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E o mais legal é que mesmo sem uma perna, e provavelmente sem um braço, ele sorriu. Um final irreverente para um gesto irreverente.

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A próxima pessoa que me chamou a atenção foi um daqueles malabaristas de sinal. O cara não só fazia firula, como fazia sorrindo. Parecia que ele tinha prazer de fazer, mesmo sendo um pivete.

O problema é que quando eu fui fotografar, acabou a bateria da máquina. Tipo poltergeist. Mas eu sou brasileiro e não desisto nunca: fui até em casa e peguei uma câmera melhor.

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malabarista-sorrindo-2

 

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malabarista-agradecimento

O cara é um showman. Apesar da roupa suja, ele deixou uma impressão boa. Inspiradora. E reclamou, naturalmente, quando eu disse que não tinha moeda. Porque eu procurei, não achei e fui embora. Mas ele merecia mais uma procurada. Então, eu revirei meus bolsos e achei três níqueis de R$ 0, 50. Dei meia volta, entreguei a esmola e ele voltou para os seus malabares, ainda mais sorridente.

E pra fechar com chave de alumínio de marmita, tem essa foto. Bem de redator que se mete na direção de arte.

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Isso tudo aconteceu em dois dias. Portanto, pode ter certeza que vem mais foto por aí. Ainda tenho muita volta pra dar.

Banda da Encol

Dia desses fui fazer um som na Encol. Uma praça com grama, bebedores e pessoas fazendo cooper. Onde ninguém corre de trás pra frente, corta árvores pra usar na lareira ou rouba os bancos pra casa da praia. Um lugar comum.

 

Sentei no chão, me encostei numa árvore, e comecei a tocar meu violão. Até uma batucada violentar a minha música. Então olhei pra trás e tinha uma turminha com pandeiro, tam-tam, bumbo. O pagode completo. Aí pensei “Pronto. Fudeu meu som!”. E tentei tocar mais uns rocks.

Mas eu tava tão preocupado com o meu som, que não pensei sobre a situação. Tinha um bando de pagodeiros na praça mais metida de Porto Alegre e eu ali, lutando pela mesmice. Então acordei e agi diferente: em vez ficar brabinho como um guri, peguei meu violão e fui falar com a rapaziada.

Eles estavam no “trepa-trepa”, que é um brinquedo ingênuo e inocente, e eram bem piás. Perguntei pra eles: “E aí, gurizada! Só no som?”. E eles responderam espertos: “Chega junto!”. Daí a gente sentou num banco, se apresentou e começou a sonzera.

Pensei nas músicas mais parecidas com samba que eu conheço e mandei ver. Fazendo o som da percussão com a boca, fui mostrando qual era o ritmo. E eles pegaram fácil: logo na primeira música já pareciam a Banda do Zé Pretinho. Aí a pagodeira comeu solta no bairro Bela Vista. Feita por um branquelo com cabelo de anjo e um bando de crianças negras.

Tem que ver a felicidade delas. Estavam maravilhadas com a música que faziam. E que era de qualidade. Porque antes o som era desorganizado, sem força. Mas só precisou do meu incentivo praqueles guris virarem sambistas. Mostrarem todo seu ritmo, malandragem e malemolência. E além de estarem surpresos com o sambão que saía das suas mãos, estavam encantados vendo um riquinho agir como eles, se igualar a eles. Tenho certeza que eles nunca vão esquecer.

E as pessoas que passavam também. Olhavam e não acreditavam. Um playboy tocando um samba rasgado com uma gurizadinha negra, que eles certamente pensaram que era filha das empregadas da região. Mas os ricos ficaram encatados com o que estava acontecendo. Encantados. Não imaginavam que aquilo era possível.

E era isso mesmo que eu queria. Mostrar pras pessoas uma nova visão de mundo. Muito mais saudável que qualquer corridinha de meia hora.

Portanto, pense nisso: muita coisa boa pode acontecer mas não acontece. As pessoas fazem sempre as mesmas coisas e não olham pra um universo de oportunidades que nos cerca. Como eu, que poderia ouvir o batuque e simplesmente ir para outra praça, emburrado, com a cabeça fechada. E muitas vezes só precisa um empurrãozinho. Um pequeno gesto e a mágica acontece. 

 

Interatividade. Este é o segredo de Tangos & Tragédias.

Começam com músicas bem tocadas, letras bonitas, um cenário pomposo. Mostrando que são talentosos. Depois bombardeiam com seus dotes cômicos, que são ainda mais fantásticos. Até aí a platéia já está hipnotizada e pronta pra fazer tudo que eles querem. As caras do “de cabelo em pé” dispensam fala. O outro tem um humor mais franco e cotidiano, e faz rir como um dono de fruteira italianão (ou um padre). Mas ambos completamente doidos. Agem como se viessem de outro mundo, disfarçando com maestria que acham tudo aquilo normal.

Então, depois de mostrar como se faz, pedem pras pessoas repetirem. E elas começam a gostar de cantar, berrar. Fazer barulhos bizarros. Partindo do normal: “IIIIiiiiii!”, “Áááááá!”, “Óóóó!”; e chegando num assustador “Bbluuoóóó”. Quando eles fizeram o público sussurrar, então… Perfeito, sincronizado, bonito. Mágico. As pessoas realmente encarnam aqueles dois loucos e ficam parecendo sbornianas.

E enquanto todo mundo ficava repetindo o que eles pediam, eu só ficava olhando e me matando de rir. Chorando de rir. Eu, meu vô e meu tio. Chorando de rir. Quando eles falavam com os da primeira fila, debochando da cara deles. Fazendo o público rir do público. Surpreendendo num espetáculo de 25 anos, com toda manha do improviso.

Além do mais, eles subvertem tudo. Fazem o bis durar quase como a peça, já que sempre agradou tanto. Quebram a descontração com histórias dramáticas e sombrias. Cantam Epitáfio, dos Titãs, sem nenhuma explicação. Levam todo mundo pra praça da Matriz para mais uma sessão de descarrego, fazendo a peça de teatro não acontecer no teatro. Me mataram de rir com a propaganda pros patrocinadores. Fazem o público rir do público, fazem o público rir do público, fazem o público rir do púúúblico!

E além de rir das besteiras, eu ria de feliz. Fascinado com tanta novidade.

Charlie Chapolin

Este ano começou com uma grande revelação. Estava eu na praia vendo “Em busca do ouro” (cena antológica acima), do Vagabundo, e achando fantástico. Como ele consegue fazer a gente rir e se emocionar tão fácil; com um simples levantar de ombros ou se apaixonando por uma puta de boteco. 

Até chegar uma cena onde ele foi defender a vadia. Um brutamontes que estava pertubando a moça começou a caminhar na direção dos pombinhos, e o Tramp se botou na frente dela estufando o peito. Mas quando o troglodita levantava a mão pra alisar o bigode, que seja, o Charlie abandonava sua pose de valente e se afastava, borrado de medo. Então, aconteceu de novo. E de novo. E foi aí que baixou uma luz divina e eu tive o insight.

Ele tava agindo igualzinho a outro gênio, que também fica tirando onda de corajoso e na hora h se caga todo: o Chapolin Colorado. E pensei mais: como se fala Chapolin em inglês? Chápolin. Ou seja, o senhor Bolaños é fãsaço do Chaplin e botou um nome quase idêntico no seu personagem. Tem até um episódio do Vermelinho que rola numa festa à fantasia, e o Bolaños está vestido de quem? De quem? De Chaplin.

Suspeitei desde o princípio.

Turminha boa

Um dos maiores prazeres da vida é conhecer coisa boa. Assistir pela primeira vez aos filmes do Hitchcock. Ler os livros do Machado. Descobrir a força das peças do Shakespeare.  O pesar das telas do Iberê. A poesia de Fernando Pessoa. Todos esses criadores me deram momentos mágicos, em que eu fiquei de boca aberta, maravilhado pelo que estava vendo. Me fizeram levantar as mãos pro céu e agradecer, tamanho o prazer de me deparar com as suas verdades. Enfim, mudaram meu jeito de pensar. 

E me deixaram querendo mais, muito mais deles. Até ver tudo que esses caras produziram. E depois que eu vejo tudo, fico até com inveja dos que ainda não conhecem. Porque entender o que eles quiseram passar traz felicidade. Tu logo percebe que aquele tempo foi valioso. Que tu pagaria 300 pila pra assistir a tal peça. Porque muda a tua vida pra sempre. Vira um norte pra ti.

Quando eu conheço uma banda legal é a mesma coisa. Fico feliz pra caralho. E sabe qual estou conhecendo agora? Um quarteto de Liverpool, ai… Isso mesmo, eu nunca reservei muito tempo pros Beatles. Até que a minha mãe me empurrou um duplo deles, do começo da carreira, e só o que eu faço é escutá-lo de cabo a rabo. Over and over and over. O Live at the BBC.   

O que até me deu um alívio. Porque chegou uma hora que comecei a me perguntar “Será que eu não tenho capacidade de entender a qualidade dos Beatles? Todo mundo acha eles geniais, a melhor banda da história…”. Pra começo de conversa, o que me afastou deles foram os Rolling Stones. A postura da banda, a malícia das letras e o som mais hard fizeram a minha cabeça. E tudo que eu sabia dos ”Fab Four” é que eles tinham muitas tietes, eram uma banda mais pop que rock e tiravam dezenas de foto com cara de “Somos os queridinhos do mundo”. Mas minha opinião sobre eles mudou definitivamente. Com este cd duplo, pude ver que a base deles é um rock de raiz. Mais parecido com Chuck Berry, Jerry Lee Lewis e Elvis. Ou seja, rock de respeito.

Finalmente caiu a ficha. Entendi que eles começaram com um rock mais bruto, e depois partiram pra inovação, pra experimentação. Fizeram a ponte entre esses caras mais antigos e todo o rock que veio depois. Sinistro! Agora eu garanto: vou ouvir os discos deles com outros ouvidos.  Depois dessa iniciação, que me fez entender os Beatles.

Depois de muito vaiar a Kaiser, ela me deu gostinho de quero mais: é a nova propaganda da marca. Enquanto a Skol lançou um comercial óbvio, a ceva do baixinho inverteu tudo e encontrou um novo jeito de explorar o charme das gatas. Com largadinhas safadas, caras safadas e mentes safadas. Elas demonstrando com todos os seus atributos que estão é na tiriça.

E não sei como não pensaram nisso antes. Todo homem vive dizendo que as coisas deviam ser iguais. Que não entende porque as mulheres não tratam o sexo como ele. Que elas têm a mesma vontade de transar mas não demonstram, ficam se fazendo. Pronto, mostraram como seria bom se esses problemas não existissem. Não tem como não agradar.

É um jeito inovador de falar a língua dos homens. E o único jeito da Kaiser ganhar pontos comigo.

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